foto: CentroApoioSemAbrigo / Facebook

O Ministério Público instaurou um inquérito com base numa denúncia contra o presidente da Cáritas de Lisboa e o responsável pelas finanças. Uma investigação do jornal Público revela que a instituição retém 2,4 milhões de euros no banco.

Uma investigação do jornal Público, publicada esta quinta-feira, revela que a Cáritas de Lisboa tem, há mais de uma década, mais de 2,4 milhões de euros no banco, além de imóveis avaliados em quase 1,4 milhões de euros.

Segundo o jornal, que teve acesso a vários documentos, as contas da instituição criada pela igreja católica “não batem certo” com os dados apresentados pelo Ministério do Trabalho e da Segurança Social.

Um exemplo dessas contradições é o facto da instituição ter recebido, em 2014, doações particulares num total de 325 mil euros, tendo gasto na ajuda aos mais desfavorecidos apenas 147 mil, dos quais pouco mais de onze mil se destinaram a ajudas diretas a famílias.

Questionada sobre o diário sobre a ampla almofada financeira que mantém no banco, a direção da Cáritas de Lisboa justifica-se com a necessidade de acautelar o agravamento da crise económica e social.

“A atual direção tem procurado, enquanto fiel depositária destes bens, que se encontram ao serviço da Igreja Diocesana, recorrer à sua utilização sempre que necessário, procurando para os restantes valores, cautelarmente, que não se desatualizem em termos de valor, acautelando-se necessidades futuras”, explica a direção.

De acordo com o Público, o Ministério Público já abriu um inquérito, na sequência de uma denúncia efetuada por dois advogados e um notário aposentado que apontam para a prática de burla qualificada.

Entre os visados estão o presidente da instituição, José Carlos Frias Gomes, e o cónego Álvaro Bizarro, responsável pelas finanças do Patriarcado de Lisboa.

Reserva financeira para assegurar períodos mais frágeis

Em declarações à agência Lusa, o presidente da Cáritas Diocesana de Lisboa, José Frias Gomes, admitiu que a instituição tem uma reserva financeira, explicando que esta se destina a assegurar financiamentos quando os valores dos donativos não cheguem para as necessidades.

“Temos alguma reserva para dar apoio ao financiamento de uma instituição que não é só de dádivas”, presta também “muito serviço” à comunidade, através do centro local de apoio a imigrantes, de uma escola, creche, do atendimento social e da formação.

Para José Frias Gomes, “as coisas não podem ser expostas de uma maneira tão linear”.

“Quando as pessoas nos dão um cêntimo é evidente que esse cêntimo não pode ser só revertido numa doação. Esse cêntimo ajuda-nos a suportar os serviços que prestamos porque da contratualização que temos com o Estado, quer para a creche, quer para o lar, isso rondará 40% da nossa atividade“, adiantou.

Há 60% que a instituição tem de angariar através do peditório e da consignação do IRS. Este financiamento “não vem de outro lado, é o que as pessoas nos derem. Se não nos dão nós não temos”.

“Daí a preocupação de termos alguma margem financeira porque não sabemos o dia de amanhã e temos responsabilidades quer para aquelas pessoas que necessitam dos nossos serviços quer para os 50 trabalhadores”, sublinhou.

José Frias Gomes salientou ainda que as contas da instituição são “absolutamente escrutinadas” e estão expostas no site da instituição, através dos relatórios anuais e mensais.

“Estamos certificados pela qualidade de acordo com a norma europeia 9001 de 2008 para as valências principais, nomeadamente creches, lar e atendimento social”, acrescentou.

Sobre as discrepâncias dos números divulgados pelo jornal, disse que podem estar relacionados “com a leitura das rubricas contabilísticas” que o jornalista “leu ou alguém lhe leu”.

José Frias Gomes disse que tomou conhecimento do inquérito do MP na quarta-feira, através do jornal, e que já pediu esclarecimentos junto da Procuradoria-Geral da República.

“Neste momento, o que posso dizer é que os nossos advogados contactaram as instâncias judiciais a perguntar se existe alguma coisa e se existe se podemos ter acesso ao processo”, frisou.

ZAP // Lusa

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