Apesar das ameaças e provocações diárias na península coreana, poucos são os analistas que acreditam num conflito aberto entre as duas Coreias, e ainda menos os que temem uma guerra na região que arraste os Estados Unidos, com todas as consequências que resultariam deste cenário.

A ideia geral é que Pyongyang tem a perfeita noção de que não resistiria a um confronto militar com Washington e Seul, pelo que a retórica inflamada dos últimos tempos deverá ser antes de mais uma estratégia de legitimação interna do regime.

A falta de provas de que a Coreia do Norte possa realmente provocar os danos que estão subjacentes às suas ameaças – principalmente quando promete lançar mísseis sobre o território continental dos Estados Unidos – reduz a discussão à possibilidade de Kim Jong-un lançar um ataque semelhante ao de 2010, quando a artilharia norte-coreana disparou contra a ilha sul-coreana de Yeonpyeong. O então Presidente sul-coreano, Lee Myung-bak, não respondeu na mesma moeda, mas a actual líder do país, Park Geun-hye – que está no poder há apenas dois meses – pode sentir-se pressionada a responder de uma forma mais musculada.

Num texto publicado no jornal britânico The Guardian, Aiden Foster-Carter, investigador da Universidade de Leeds especialista na península coreana, tenta responder à questão sobre uma possível guerra aberta na península coreana: “Se tiver de responder com uma única palavra, seria ‘não’. Um engraçadinho do Ministério da Defesa da Coreia do Sul disse no início do mês que ‘os cães que ladram não mordem’. Fazer uma generalização deste tipo pode ser questionável, mas neste caso é possível perceber a argumentação. A Coreia do Norte prefere atacar pela calada, como o ataque com um torpedo em Março de 2010 que afundou o navio sul-coreano Chonan: morreram 46 pessoas. Uma emboscada nunca é anunciada previamente. (…) Algumas das ameaças de Pyongyang podem ser descartadas. Não há provas de que tenham mísseis com autonomia superior a 4000 milhas (6437 quilómetros) nem de que já tenham conseguido colocar ogivas nucleares nesses mísseis. Mesmo que conseguissem fazê-lo – o que, repito, não conseguem –, qualquer ataque nuclear seria interceptado. A Califórnia, e por maioria de razão Nova Iorque e Washington, podem dormir descansados.”

Leonid Petrov, especialista em Política Norte-Coreana na Universidade Nacional da Austrália, afirma que “ninguém está interessado em iniciar uma guerra aberta” na península coreana e define a estratégia de Pyongyang como “comportamento para chamar a atenção”.

“A Coreia do Norte está a tentar justificar internamente a razão da sua terrível situação económica. O regime quer consolidar o apoio do povo em redor do seu jovem líder Kim Jong-un, mas ao mesmo tempo está a enviar uma mensagem através do Pacífico, dizendo que está preparado para negociar e que pretende uma solução diplomática. Eles sabem que as armas nucleares que desenvolveram nos últimos dez anos – enquanto Washington manteve a sua política de paciência estratégica – não lhes trouxeram quaisquer benefícios, mas as sanções económicas também não vão demovê-los. (…) O que a Coreia do Norte está a dizer é que só há duas soluções: ou uma guerra nuclear, ou uma solução diplomática. (…) Não acredito que sejam eles os primeiros a atacar, e de certeza que nunca irão atacar os Estados Unidos – o seu território fica a uma grande distância e o seu armamento não é muito preciso. (…) O custo de uma nova guerra na península coreana seria terrível: um milhão de mortos por dia. Por isso, ninguém está interessado em iniciar uma guerra aberta”, afirmou Petrov, em declarações à estação de televisão Al-Jazira.

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