foto: Mikhail Klimentyev / Sputnik

Nos últimos dias, os ataques com drones kamikaze levados a cabo pela Rùssia têm feito estragos nas infraestruturas ucranianas e estão a dar a um novo fôlego à causa de Moscovo, que há poucas semanas parecia destinada ao fracasso devido à grande recuperação de territórios pelas forças de Kiev.

Este reforço no armamento russo gerou especulação sobre de onde estariam a vir os drones, com as suspeitas dos Estados Unidos a recaírem sobre o Irão. O Kremlin rapidamente refutou esta ideia, dizendo que os equipamentos eram russos e tinham uma nomenclatura russa e o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão também negou a venda de armamento na terça-feira.

No entanto, foi ontem noticiada a confirmação de que o Irão está a vender armas à Rússia, incluindo mísseis e drones, pela voz dois diplomatas iranianos. Os dois países reuniram-se pela primeira vez em Setembro e chegaram a um acordo a 6 de Outubro, quando os responsáveis iranianos foram até Moscovo.

“Os russos tinham pedido mais drones e mais mísseis balísticos iranianos com a precisão melhorada, particularmente da família Fateh e Zolfaghar”, revela um dos diplomatas à Reuters. Ambos estes modelos são mísseis de curto alcance, capazes de atacar alvos num raio de entre 300 e 700 quilómetros de distância.

Já um dos drones vendidos é o Shahed-136, precisamente o modelo de drone kamikaze que a Rússia tem usado nos recentes ataques em Kiev, que causaram cortes na electricidade em centenas de vilas.

Dada a escassez de armamento do lado russo que tem sido noticiada nas últimas semanas, faz sentido que Moscovo comece a procurar aliados internacionais que lhe vendam armas. Visto estar também a ser sufocado pelas sanções ocidentais, o Irão era um aliado natural para a Rússia.

O comandante da Guarda Revolucionária do Irão, Hossein Salami, revelou no mês passado que algumas das “super-potências do mundo” estão interessadas na compra de armamento iraniano.

Rahim Safavi, um conselheiro militar do líder supremo do Irão, também afirmou na terça-feira que há 22 países interessados em comprar drones iranianos. Para além da venda de armas, o The New York Times reporta ainda, citando fontes do Governo dos EUA, que o Irão tem enviado especialistas em drones para a Crimeia para ajudarem os russos a resolver quaisquer problemas que surjam no uso dos equipamentos.

EUA e UE preparam mais sanções

Como resposta ao envolvimento do Irão, a União Europeia já está a preparar um reforço nas sanções ao país. “Estamos a acompanhar de muito perto o uso destes drones, estamos a recolher provas e estaremos prontos para reagir com as ferramentas à nossa disposição”, revelou o alto representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, na segunda-feira.

De acordo com quatro diplomatas ouvidos pelo Politico, o novo pacote pode ficar fechado já esta quarta-feira e irá atingir três entidades e cinco indivíduos iranianos.

O novo pacote surge depois de a UE já ter reforçado as sanções contra a “polícia da moral” iraniana na segunda-feira, como um sinal de apoio aos manifestantes que têm protestado contra o Governo após a morte de Mahsa Amini, uma jovem que terá sido assassinada por não usar correctamente o hijab.

O Ministro da Defesa do Reino Unido, Ben Wallace, voou para Washington para discutir a perigosa nova fase da guerra, partilhar informações sobre o envolvimento do Irão e discutir que pacote de defesa aérea pode ser fornecido à Ucrânia para ajudar a nação a responder aos ataques.

A França e o Reino Unido consideram que o fornecimento de armas à Rússia viola as obrigações do país definidas no acordo nuclear de 2015 (conhecido como Plano de Ação Abrangente Conjunto), que determina que o Irão não pode vender certas tecnologias militares.

Os Estados Unidos concordam. “Acreditamos que estes drones que foram transferidos do Irão para a Rússia e usados pela Rússia na Ucrânia são armas que permaneceriam no embargo de acordo com a provisão 2231″, explica Vedant Patel, do Departamento de Estado.

Patel acrescenta ainda que a aliança entre a Rússia e o Irão deve ser vista por todo o mundo como uma ameaça, relata a BBC. “Qualquer pessoa que faça negócios com o Irão, que tenha ligações aos drones ou aos mísseis balísticos ou ao fornecimento de armas do Irão para a Rússia deve ter muito cuidado e informar-se. Os Estados Unidos não vão hesitar em usar sanções“, avisa.

O diplomata ouvido pela Reuters nega que as vendas de armamento violem a resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas. “Onde o armamento está a ser usado não é um problema do vendedor. Não tomamos partido na crise da Ucrânia como o Ocidente. Queremos o fim da crise por meios diplomáticos”, afirma.

Depois da aproximação vivida entre o ocidente e o Irão durante a administração Obama, com a assinatura do acordo nuclear, as tensões voltaram durante o mandato de Donald Trump, que rasgou unilateralmente o acordo em 2018. Desde então, as negociações entre os dois lados têm estado num impasse e o clima de conflito voltou.

Aliança anti-ocidente à vista?

O Irão não é o único país que nos últimos tempos se tem aproximado à Rússia e há já receios de que o conflito na Ucrânia se torne um palco de uma guerra entre o Ocidente e uma aliança anti-ocidente liderada por Moscovo.

No mês passado, os Estados Unidos acusaram a Coreia do Norte de também estar a vender armamento, tendo Pyongyang rapidamente negado a existência de qualquer aliança com Moscovo.

Já a Arábia Saudita tem sinalizado um apoio à Rússia, após a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) ter anunciado um corte na produção que vai indirectamente beneficiar Moscovo, já que vai manter os preços da energia altos e aumentar a pressão sobre as economias ocidentais que boicotaram o petróleo e gás russos e estão a sofrer com a escalada de inflação.

A decisão criou um clima de tensão entre os Estados Unidos e os sauditas, especialmente depois de Joe Biden ter visitado o país na esperança de convencer o príncipe Mohammed bin Salman a aumentar a produção petrolífera para tentar controlar a subida de preços dos combustíveis.

O Presidente norte-americano já ameaçou de que “haverá consequências” para a decisão dos velhos aliados sauditas, com quem os EUA têm uma parceria no sector energético há mais de 75 anos. Entre as medidas estudadas está possível fim da isenção de que a OPEP beneficia que lhe permite contornar as leis anti-cartel e também uma redução ou corte total na venda de armamento a Riade.

O Senador Democrata Richard Blumenthal até já propôs um congelamento de um ano na venda de armas, considerando que há um risco de que os sauditas partilhem a tecnologia norte-americana com a Rússia. Blumenthal afirma que vai tentar perceber qual o risco de isso acontecer nas discussões que terá com o Pentágono.

“Quero algumas garantias de que eles estão a acompanhar a situação e, se houver riscos, quero determinar o que pode ser feito para mitigar esses riscos imediatamente”, revelou numa entrevista ao The Guardian.

Diederik Cops, investigador no Flemish Peace Institute na área de comércio de armas e sua produção, considera que nem tudo está perdido na relação dos EUA com a Arábia Saudita.

“Os sauditas são importantes clientes do equipamento norte-americano, o que gera uma relação de dependência entre a Arábia Saudita e os Estados Unidos. Por isso, os EUA têm poder em relação aos sauditas, podem colocar pressão nessa relação”, explica ao Expresso.

Há ainda dois grandes nomes que têm ficado mais de fora — a China e a Índia. Até agora, Pequim tem mantido uma postura mais neutra e apesar de não dar um apoio explícito à Rússia, também não se tem juntado ao Ocidente nas sanções.

“A China poderia mas ainda não o fez. Tal como a Índia, tem tentado manter as boas relações com a Rússia mas também com o resto da Europa”, remata o investigador.

   Adriana Peixoto, ZAP //

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