foto : Tiago Petinga / Lusa

Portugal juntou-se aos mais de 10 países europeus que suspenderam a aplicação da vacina da AstraZeneca, depois de serem reportados casos de coágulos sanguíneos em pessoas vacinadas com esta.

A decisão está a atrasar o processo de vacinação e leva o Conselho de Escolas Médicas Portuguesas (CEMP) a manifestar “preocupação”.

“É importante clarificar que estas decisões, que acreditamos terem sido tomadas por mera precaução, parecem decorrer da pressão de uma cobertura mediática do processo de vacinação que, em detrimento de fundamentos científicos, faz um juízo altamente precipitado sobre matérias relativamente às quais não pode existir uma análise meramente casuística”, alerta o CEMP em comunicado.

As Escolas Médicas apelam às autoridades de saúde nacionais para que “sustentem as decisões que afectam directamente o plano de vacinação em Portugal em dados científicos factuais, combatendo, assim, um julgamento público infundado, que apenas alimenta a desconfiança” na vacinação” e “o atraso de um processo que urge cumprir, pela saúde do país”.

A CEMP afiança, assim, que não existem dados científicos que sustentem a suspensão da vacina, lembrando que esta foi administrada a cerca de 17 milhões de pessoas na Europa e no Reino Unido, com apenas 40 casos reportados de efeitos secundários graves, conforme os dados da AstraZeneca.

“Pressão pública” e “guerra” entre farmacêuticas

Também o eurodeputado José Gusmão, dirigente do Bloco de Esquerda, critica a decisão tomada pelo Infarmed e pela Direção Geral de Saúde (DGS), considerando, em declarações à SIC Notícias, que tomaram uma decisão “contra o seu próprio critério científico” para “tranquilizar” as pessoas.

José Gusmão nota que o “princípio da prudência” é “muito saudável no que diz respeito a medicamentos”. Mas, neste caso, “o princípio da prudência parece estar invertido”, diz, frisando que “estamos a atrasar o processo da vacinação que é absolutamente fundamental” para combater a pandemia.

“Há pessoas do grupo de risco que estão ainda a ser vacinadas e tomas que estão a ser adiadas por causa desta decisão que não tem uma base científica”, constata.

O eurodeputado acredita que a suspensão surgiu por “pressão pública” e por “alguma guerra de desinformação entre as várias empresas farmacêuticas que começou desde o início deste processo”.

Além disso, José Gusmão acredita que a suspensão “vai criar muitos mais problemas ao processo de vacinação” e até alimentar os movimentos anti-vacinas.

O director da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, Carlos Robalo Cordeiro, também salienta, em declarações à Rádio Observador, que os dados científicos não justificam a suspensão imediata da vacina da AstraZeneca.

Cordeiro, que integra o CEMP, frisa ainda que os responsáveis médicos estão “preocupados pela possibilidade de esta suspensão afectar a confiança da população na vacinação”.

Ordem dos Médicos reafirma confiança na vacina

A Ordem dos Médicos (OM) veio, entretanto, reafirmar a sua confiança na vacina desenvolvida pela AstraZeneca, apelando “à serenidade de todos” e vincando “os benefícios da imunização para a saúde dos cidadãos e para a retoma económica dos vários países”.

“Os eventos tromboembólicos, que inclui a forma mais grave de tromboembolia pulmonar, nas pessoas já vacinadas não é superior ao identificado na população em geral“, destaca ainda a OM.

A entidade nota que em cerca de cinco milhões de pessoas vacinadas com a AstraZeneca, foram reportados “30 fenómenos tromboembólicos”, o que dá “uma incidência de 0,000006%”, isto é, de “0,6 casos por cada 100 mil pessoas, quando na população em geral se registam normalmente 16 a 38 casos de tromboembolismo pulmonar por 100 mil pessoas a cada ano”.

Além disso, “na maioria dos países, a vacinação está a começar pelos grupos dos mais idosos ou com mais comorbilidades, isto é, pelas pessoas mais doentes e mais frágeis, onde a incidência de eventos tromboembólicos já seria sempre superior à da população geral”, vinca também.

Assim, a OM conclui que “não está provado que os fenómenos tromboembólicos relatados foram provocados pela administração da vacina”.

“A pílula causa 3 vezes mais risco destes coágulos”

Entretanto, há especialistas que vão recordando que há medicamentos à venda em Portugal, como o Brufen e o Paracetamol, ou até a pílula contraceptiva, que têm uma série de efeitos secundários graves, como os coágulos sanguíneos.

“A pílula causa 3 vezes mais risco de tromboembolismo destes coágulos”, explica à SIC Notícias o neurologista e professor de farmacologia Joaquim Ferreira, notando que isso pode deixar “as senhoras assustadas”.

Contudo, o especialista destaca que “os números são muito traiçoeiros” e reforça que “a probabilidade de uma senhora jovem ter um destes episódios é de 0,05% por cento por ano”. Portanto, “o risco de base é muito raro”, conclui.

No que se refere aos riscos de trombose associados à vacina AstraZeneca são de 0,002%, como aponta a SIC Notícias. Os valores estão abaixo dos números habituais da doença na população geral.

Estamos aqui a falar de “tromboses das pernas” e de “coágulos no coração que podem ir para outras zonas do corpo”, como explica ainda Joaquim Ferreira.

Pfizer ligada a mais casos de coágulos no Reino Unido

Entretanto, do Reino Unido chegam insinuações de que a suspensão da vacina da AstraZeneca tem motivações políticas.

A vacina foi desenvolvida pelo laboratório anglo-sueco em parceria com a Universidade de Oxford e é conhecida como a vacina britânica.

A reguladora britânica do medicamento, a MHRA, já veio notar que, no Reino Unido, foram reportados mais casos de coágulos sanguíneos em pessoas inoculadas com a vacina da Pfizer do que com a da AstraZeneca.

A MHRA detectou 38 casos em 11.4 milhões de doses aplicadas da vacina da Pfizer, enquanto registou 30 casos em 9,7 milhões de doses da AstraZeneca, como reporta a RTP. Assim, estamos a falar de uma diferença mínima.

O que os britânicos acham estranho é o facto de os casos associados à Pfizer não estarem a ser tão noticiados.

O deputado conservador britânico Anthony Browne já acusou os países que suspenderam a vacina da AstraZeneca de se estarem a deixar guiar pela “política, não pela ciência”. “O amuo europeu com o Brexit vai custar vidas europeias”, acusou.

Suspensão “irresponsável” e “bizarra”

Entretanto, o professor de virologia Lawrence Young, especialista em oncologia molecular da Universidade de Warwick, nos EUA, considera que é “francamente irresponsável ter sido interrompido um programa de vacinação quando as taxas de infecção são tão elevadas”.

Em declarações à Euronews, Young nota que “as pessoas vão realmente ficar doentes e até morrer por não receberem a vacina“. Além disso, a suspensão também vai “abalar a confiança nesta e noutras vacinas” e, portanto, “vai piorar a situação”, diz.

Young também realça que há poucas diferenças entre as vacinas AstraZeneca e Pfizer no que diz respeito aos casos de coágulos sanguíneos.

Portanto, considera que “seleccionar a vacina AstraZeneca [para suspender] acima de qualquer outra”, é “uma decisão um tanto bizarra”.

“Deixou de funcionar aqui a União Europeia”

Perante os dados, o que é importante é passar “uma mensagem de segurança, tranquilidade e de confiança” porque as vacinas foram “amplamente testadas”, considera à agência Lusa o bastonário da OM, Miguel Guimarães.

“Não há dúvidas que em todos os estudos realizados em todas as vacinas os seus benefícios superam largamente os riscos que estão associados e isto pode ter um efeito negativo naquilo que é agora o nosso objetivo maior que é vacinar rapidamente o maior número de pessoas”, destaca Miguel Guimarães.

O Bastonário defende que teria “sido sensato” os países terem agido “como um todo”.

Deixou de funcionar aqui a União Europeia“, observou, considerando que teria sido “mais sensato” a UE reunir os responsáveis das agências do medicamento ou os ministros da Saúde e em conjunto terem pensado de “uma forma mais unida, mais coerente”, aguardando “mais dois ou três dias” pela decisão da Agência do Medicamento e da Organização Mundial de Saúde que estão a avaliar, novamente, a vacina da AstraZeneca.

Susana Valente Susana Valente, ZAP // Lusa

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