foto : USACE HQ / Flickr

Portugal tem um problema de falta de engenheiros numa altura em que tem pela frente o trabalho hercúleo de aplicar os milhões dos fundos europeus recebidos no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

É o vice-presidente da Ordem dos Engenheiros (OE) quem o diz em entrevista ao programa da TSF “A Vida do Dinheiro”.

Não há engenheiros para o que o Estado quer fazer nos próximos dez anos”, constata Fernando Almeida Santos que é engenheiro civil e um dos candidatos a bastonário da OE.

“Vamos ter 50 mil milhões de investimento na década e já estamos aflitos com 2,5 mil milhões anuais, já não temos engenheiros”, atesta ainda.

“Se pensarmos que os nossos emigrantes não voltam – e se voltassem teriam dificuldade em preencher as necessidades do país -, acho que temos de ter claras políticas de imigração qualificada e integrada num plano de combate ao défice demográfico português”, aponta também Fernando Almeida Santos.

O exemplo do Luxemburgo

A título de exemplo, o vice-presidente da OE fala do Luxemburgo dos “anos 70” que “não tinha população activa suficiente e fez um trabalho social intenso, chegando a dois países “finalistas” para apostar na imigração deles: jugoslavos e portugueses“.

“Apostaram em nós e hoje há portugueses ou seus descendentes em posições de liderança“, nota ainda sobre o caso luxemburguês, defendendo que Portugal deve actuar de forma semelhante.

“Nós temos de ser proactivos e não reactivos“, diz.

“Já tem havido movimentações com a fileira da construção para tentar acelerar questões de imigração sectorial, mas é complicado, porque a fileira ainda não é vista como motor da economia, mesmo que o seja – e com o PRR e o PT2030 será mais”, lembra Fernando Almeida Santos.

“Emigrou imensa gente”

“crise na construção da última década” leva a que haja falta de mão-de-obra especializada inclusive nas “áreas tradicionais”, como a engenharia civil, segundo refere o responsável da OE.

Assim, os cursos desta área têm, actualmente, menos procura do que era costume.

Além disso, “emigrou imensa gente – só na construção há um défice de 70 mil profissionais”, destaca Fernando Almeida Santos.

“Depois, se pensarmos no PRR e no PT2030, que são baseados na transição digital, na acção climática, nas infraestruturas e na mobilidade, é tudo engenharia, seja das novas tecnologias seja das engenharias clássicas”, vinca ainda.

“E nas novas áreas temos um problema delicado: sendo desmaterializadas, os nossos jovens engenheiros emigram às vezes até sem saírem de Portugal“, repara também.

“Estado está a prejudicar-se a si próprio”

Perante este quadro, o vice-presidente da OE entende que é importante implementar políticas de “valorização dos engenheiros”. Até porque, como diz, “tem existido nos últimos anos uma política de contratualização pública que prejudica as empresas portuguesas, nalguns casos em particular os engenheiros”.

Num retrato da realidade, Fernando Almeida Santos nota que “os preços base abaixo do valor de referência do mercado levam a que as empresas, para ter trabalho, tenham de diminuir preços, para o que baixam margem ou vão só para sobreviver”.

“Isso faz com que não consigam subir salários e provoca dumping salarial – uma evidência nos últimos anos na engenharia – com a agravante de as empresas não conseguirem riqueza, que é o que provoca inovação e internacionalização”, atesta ainda.

“Portanto, indirectamente, o Estado está a prejudicar-se a si próprio ao não ter empresas musculadas”, conclui o vice-presidente da OE.

O engenheiro civil admite que o PRR pode ser uma lufada de ar fresco para o país, mas só “se Portugal souber valorizar-se”.

“Nos últimos dois ou três anos entregámos mais de metade das contratualizações a empresas estrangeiras. Na construção, praticamente todas eram espanholas. A riqueza não fica cá”, alerta.

“Estamos a produzir trabalho para exportar riqueza e isso não pode acontecer”, avisa ainda, constatando que é preciso “criar ferramentas para salvaguarda do interesse nacional”.

   ZAP //

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