Tumor oral provocado pelo vírus do papiloma humano é cada vez mais comum quando há relações sexuais desprotegidas. Em Portugal também estão a aparecer mais casos

Quase três anos depois de ter anunciado publicamente que tinha um “cancro na garganta”, o ator Michael Douglas, numa nova entrevista, avançou que o seu tumor tinha sido causado pelo vírus do papiloma humano (HPV), mais conhecido por ser precursor de alguns tipos de cancro do colo do útero.

O também marido da actriz Catherine Zeta Jones, com quem teve dois filhos, numa entrevista ao diário inglês Guardian, à margem do Festival de Cannes, questionado sobre se está arrependido da vida de excessos em termos de consumo de álcool e de drogas respondeu: “Não. Porque, sem querer ser muito específico, este tipo de cancro em particular foi causado por HPV, que na verdade advém do cunnilingus.” E acrescentou: “Cheguei a pensar se o stress causado pela prisão do meu filho não poderia ter ajudado a desenvolvê-lo. Mas é de facto uma doença sexualmente transmissível que causa cancro.”

Em 1992 o ator, agora com 68 anos e vencedor de dois Óscares em 1976 e 1988, esteve internado para fazer um tratamento de reabilitação devido à dependência de drogas e álcool, mas garantiu que não foi esse capítulo da sua vida que o conduziu ao tumor. A primeira vez que Douglas falou publicamente do tumor foi em Agosto de 2010, durante o programa televisivo Late Show with David Letterman. Nessa altura, confirmou que tinha um “cancro na garganta” diagnosticado na fase quatro – o que significa que o tumor já estava muito avançado, mas nunca especificou a zona concreta onde se desenvolveu.

Ainda ao Guardian, o actor explica que o tratamento que o fez perder mais de 13 quilos passou por várias fases, como dois meses de quimioterapia, radioterapia e uma “drenagem”, sem explicar em que é que se traduziu este procedimento. “Tenho de fazer exames regularmente. Agora é a cada seis meses mas estou há mais de dois anos sem nada. Este tipo de cancro em 95% das vezes não volta”, contou.

Mais casos de cancro por sexo oral desprotegido
A revelação do ator serviu de alerta para um tipo de tumor que ainda é pouco conhecido pela população em geral, uma vez que o HPV é quase sempre referido quando se fala de cancro do colo do útero. Aliás, em Maio, através de um comunicado, o Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa tinha precisamente alertado que o sexo oral desprotegido representa um factor de risco para o desenvolvimento de alguns tipos de cancro oral – sendo cada vez mais comum encontrar estes tumores em jovens aparentemente saudáveis, quando antes o doente-padrão correspondia a um homem com mais de 50 anos e com historial de consumos excessivos de álcool e tabagismo.

O otorrinolaringologista assistente graduado do IPO Carlos Zagalo em entrevista ao PÚBLICO, explicou que apesar de os cancros da cavidade oral provocados por HPV serem ainda uma minoria (cerca de 5% do total) “têm vindo a crescer”, sendo por isso cada vez mais importante apostar num diagnóstico precoce, visto que se forem detectados cedo têm um prognóstico melhor. O cirurgião do serviço de Cirurgia de Cabeça e Pescoço do IPO diz que as estatísticas indicam que em casos como o de Douglas, quando o cancro está no estádio quatro, que a possibilidade de sobrevida nos primeiros cinco anos não vai além dos 15 a 20%, mas que naturalmente as percentagens são apenas indicativas.

Os tumores da cavidade oral são os sextos no mundo a matar mais gente. Em Portugal, estimam-se que morram 300 pessoas por ano com este tipo de cancro. O Ministério da Saúde tem em marcha um plano para lançar um programa nacional de rastreio, que poderá ser coordenado com outras medidas lançadas na área da medicina dentária, como os chamados “cheques-dentista”.

Sinais de alerta
Quanto ao diagnóstico, o também professor de Cirurgia e Medicina Oral do Instituto Egas Moniz adianta que em geral os doentes chegam com “uma suspeita clínica” e que é já nos serviços de Cabeça e Pescoço que é então feita uma biopsia que permite confirmar se o doente tem de facto um carcinoma. Em alguns casos, é também feito um exame virulógico que permite perceber se dentro das células do tumor está ou não o HPV. Existem vários serotipos do vírus e em geral apenas o 16 e o 18 estão diretamente relacionadas com este tumor, sublinha Carlos Zagalo.

Em Portugal, são comercializadas vacinas contra o cancro do colo do útero de duas marcas e está em marcha um plano nacional para vacinar as adolescentes, mas que trará benefícios futuros para homens e mulheres. Ambas as vacinas contemplam precisamente os serotipos 16 e 18, responsáveis por 70% dos casos de cancro do colo do útero. Uma delas contempla também os serotipos 6 e 11, responsáveis por cerca de 90% das verrugas anogenitais.

“A vantagem é que os cancros orais provocados por HPV parecem ser mais radio-sensíveis”, afirma Carlos Zagalo. Isto é, respondem melhor ao tratamento por radioterapia, ainda que muitos protocolos médicos continuem a dar prioridade à cirurgia antes de se partir para a radiação. Sobre o caso específico de Douglas, o médico ressalva que não conhece pormenores mas alerta que o termo “cancro na garganta” não é correto.

Língua e amígdalas, as zonas mais propícias
Contudo, e mesmo não tendo o ator referido a localização exata do tumor, Zagalo adianta que a base da língua e as amígdalas são as zonas mais propícias para o desenvolvimento do cancro, sendo por norma o diagnóstico dos tumores nas amígdalas mais difíceis e os doentes chegam já em fases mais avançadas. Por isso, o otorrinolaringologista reforça a importância que os médicos dentistas têm no primeiro contacto com os doentes e aconselha qualquer pessoa que tenha um nódulo, uma ferida na boca há mais de três semanas sem cicatrizar ou cujos bordos sejam duros a consultar um médico.

No ano passado, um estudo que saiu na publicação científica Journal of Infectious Diseases concluía precisamente que quase 28% das pessoas com cancro da laringe tinham tecidos tumorais com resultados positivos para HPV. Um grupo de cientistas chineses combinou os resultados de 55 estudos das últimas duas décadas, mas ressalvou que o índice variou muito de estudo para estudo – desde a ausência do HPV em pacientes com cancro da cavidade oral, até uma taxa de infecção de 79% pacientes com tumores. O trabalho, coordenado por Xinagwei Li, da Academia Chinesa de Ciências Médicas e da Faculdade Médica da Universidade de Pequim, dizia também que os tecidos cancerosos da garganta tinham 5,4 vezes a hipótese de dar positivo para um exame de HPV, em relação ao tecido não canceroso.

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