Noa é o nome artístico de Lia Gesta, a mesma pessoa demarcada por um nome que resguarda a essência de quem a cria. O iPressGlobal quis saber mais sobre esta artista que dá cartas junto do grande público, com uma voz única e na companhia do violino.

Foi na taberna do Cais das Pedras, num ambiente brindado pela simplicidade, conforto e ao som do fado tão característico das casas portuguesas, que encontramos Noa. Neste espaço, muito conhecido pelas suas tapas, respira-se música, a decoração é sublinhada pela presença de alguns instrumentos musicais que se encontram à disposição dos clientes, “Os clientes são estimulados por este clima de cultura, boa disposição e informalidade a tocar os instrumentos”, sublinhou Noa.

É aliás neste local que nasce a inspiração para muitos dos temas que Noa escreve e compõe, “Reúno-me muitas vezes aqui com músicos e não é raro serem esses momentos de inspiração de onde saem alguns dos meus temas”.

iPG(iPressGlobal)- Para que os leitores a conheçam um pouco mais, permita-me que lhe pergunte quem é a Noa?

N(Noa)- A Noa é quem dá voz e alma ao que se passa no interior da Lia. É quem traz para o dia o que é gerado na noite da Lia. É quem dá à luz o que a Lia concebeu.

iPG- Como surgiu o violino na sua vida, escolheu-o ou foi o violino que a escolheu?

N Entrei para o ballet aos 6 anos de idade numa academia em Gaia: Academia de Música de Vilar do Paraíso. Aos 10 anos a minha mãe perguntou-me se gostaria de aprender um instrumento e qual seria. Escolhi a harpa. “Mas nós não temos casa para pôr uma harpa! Pensa noutro!”, foi a resposta. E pronto, foi assim que escolhi o violino. Por ser mais pequeno.

“Os livros sempre estiveram presentes na minha vida”Mário Tavares - iPressGlobal-5607

Apaixonada pela leitura, pela escrita, pela música e pela família, desde cedo descobriu os mistérios que enceram os livros, aproveitando as idas em família ao supermercado para ler. Este gosto levou-a ao curso de Estudos Portugueses e Lusófonos e ao mestrado de Estética Literária, impulsionando a escrita das canções que canta.

iPG- Penso que é a Noa a autora das letras do que canta, acha que o facto de gostar de ler desde muito pequena a levou a desenvolver o gosto pela escrita?

N Sim, as letras são pessoais. Desde que me lembro que, quando os meus pais iam fazer compras ao hipermercado, eu ficava sentada na zona dos livros à espera que acabassem. O meu pai dizia que eu “escrevia a metro”. Os livros sempre estiveram presentes na minha vida porque, crescendo como filha única, passava muito tempo sozinha. Hoje tenho a impressão que li alguns livros fora de época: “um rapaz que se transforma num bicho no interior do seu quarto?? De certeza que não é isto o que quer dizer o autor” E fechei o livro com a sensação de frustração mas também de aceitação por não ter percebido nada d’ A Metamorfose. Foram livros que não entendia bem com cerca de 12 anos, mas que cedo me ajudaram a filtrar os bons autores. No curso de Estudos Portugueses e Lusófonos e agora no mestrado de Estética Literária posso escarafunchar numa forma mais profunda e prazerosa uma das grandes paixões da minha vida que é ler e desta forma poder escrever melhor.

iPG- É também a Noa que as compõe?

N- Sim. Peço a ajuda do meu pai que sabe tocar guitarra e ele também dá as suas ideias e juntos tornamos a música real.

iPG- No fundo, as canções surgem de uma relação de afetos. Sente que esse aspeto pode fazer a diferença junto do público que escuta as suas interpretações?

N- Sim, é de emoções que falamos porque todos as vivemos de uma forma ou de outra: o desapego, o “ir embora”, a saudade, o “voltar”, a paixão, o amor… são estas situações que unem quem canta e quem ouve.

iPG- Desde sempre pensou na música como profissão?

N- Não, nunca. Aliás, quis desistir por volta dos 15 anos mas os meus pais interpuseram-se (e ainda bem!), e obrigaram-me a continuar. Às vezes, o violino consegue ser diabólico e fiquei muitas vezes amuada com ele. Agora não, mas, nos tempos de estudo, era uma relação de amor-ódio. A música como profissão foi uma situação que foi acontecendo devido aos pedidos para tocar em casamentos e eventos religiosos. Muito mais tarde, como tinha um violino elétrico parado em casa e muitos amigos dj’s, acabei por juntar as peças e dessa forma enveredar pela house music.

iPG- Como descreveria o seu percurso na música até hoje? Vingar neste meio é o resultado de muito trabalho e de alguma sorte?

N- O meu percurso na música foi espontâneo. Foi sendo e continua a ser. Paralelamente aos estudos musicais, a minha formação académica levou-me pelo mundo dos livros e da escrita. Este caminho mais não é que a culminação destas duas paixões: a música e as letras. “Vingar neste meio” é uma expressão que não me revejo. Parece-me que nunca se pode dizer concretamente “Vinguei neste meio finalmente!” Que quer isso dizer realmente? Que se tem em agenda muitos espetáculos? Que o nosso cd se vende muito? Que nos reconhecem na rua? Mas é tudo tão volátil, tão instável! É tudo muito inconstante e seria uma ilusão para mim se achasse que estas coisas bastavam. Trabalho dia a dia para me sentir feliz e realizada e isso sim, faz-me sentir bem.

 iPG- Sabemos que o lançamento do seu álbum de estreia está programa para este mês, no entanto o público já teve oportunidade de escutar algumas das canções, como tem sido a reação?

N- Sim, nas duas primeiras semanas de Fevereiro, o álbum que se chama “As Coisas Boas”, já estará à venda nos pontos habituais. A reação tem sido ótima. Com alguma surpresa porque algumas pessoas conheciam-me apenas do violino e não sabiam desta vertente do canto e da composição mas a reação tem sido muito positiva.

iPG- Em que género musical podemos inserir o que canta?

N- Não sei! Tenho um problema com rótulos. Castram. E neste caso isso também não é possível delimitar porque no cd há blues, house music, uma bossa nova, uma czarda… não é mesmo possível. Vamos dizer… Música portuguesa apenas.

iPG- Que expectativa tem para este seu primeiro álbum?

N- Não tenho! Não sei o que vai acontecer. Estou muito ansiosa com este passo porque para mim é uma experiência nova e não faço ideia do que vai acontecer a seguir. Por isso, pelo sim pelo não, e até como defesa, prefiro não criar expectativas nenhumas.

Sem criar expectativas para o lançamento do seu trabalho, mantém os sonhos e a esperança de os realizar. Para 2015, Noa espera um “ano de emoções fortes e isso preocupa-me um bocadinho porque o meu coração é fraquinho. Espero um ano de muito trabalho, isso sim, estou preparada”. Para o futuro, não descarta os projetos que tem vindo a alimentar: “Sonho abrir um restaurante em Lisboa. Sonho em abrir uma escola. Sonho em ter filhos. Sonho em viajar mais e ter mais tempo para ler. Sonho curtir mais as minhas irmãs que, por motivos de distância, não o faço as vezes que queria. Sonho ter uma casa maior para adotar mais cães.”

Texto: Mara Pereira
Fotografias: Mário Tavares
COMPARTILHAR

DEIXE O SEU COMENTÁRIO

Por favor escreva o seu comentário!
Por favor introduza o seu nome aqui