foto: George W. Bush Administration / Wikimedia

Um estudo, publicado em dezembro do ano passado na revista Historical Social Research, sustenta que um em cada dez líderes mundiais tem um ou mais familiares que foram eles próprios líderes ou estiveram diretamente envolvidos na cena política dos seus países.

Para o efeito, foram analisados 1029 executivos políticos — presidentes e primeiros-ministros — na Europa, África Subsariana, Ásia, América do Norte e América Latina, entre 2000 e 2017. Chegou-se à conclusão que 119, ou 12%, dos líderes mundiais pertenciam a uma família com laços políticos.

Entende-se laços políticos como de sangue ou casamento com alguém que já esteve envolvido na política, seja como juiz, membro de uma partido, burocrata, legislador, presidente ou ativista.

Os exemplos mais notáveis deste padrão são o ex-presidente americano George W. Bush, o atual primeiro-ministro canadiano Justin Trudeau e a anterior presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner.

O caso dos Estados Unidos, aliás, é paradigmático da predominância das dinastias de líderes nas grandes nações do Mundo, bastando para tal constatar que, durante 32 anos, entre 1981 e 2013, houve sempre um Bush ou um Clinton nos três mais altos cargos executivos do país — Presidente, vice-Presidente e Secretário de Estado.

Ligações familiares por todo o mundo

As ligações políticas de família revelaram-se importantes em todas as regiões alvo de um estudo, publicado no The Conversation, nas monarquias e democracias e nos países ricos e pobres. Nas monarquias, o poder é herdado por natureza, mas mesmo nas democracias, pertencer a uma família política é uma vantagem significativa.

Esta dá aos candidatos o reconhecimento do nome, alguma experiência política e melhor acesso a aliados e recursos ao concorrer para o cargo. No caso de Bush e Trudeau, os seus pais já tinham estado no cargo que viriam a desempenhar.

Tecnicamente, a América do Norte registou a maior taxa de líderes com laços familiares. Dois dos oito presidentes e primeiros-ministros que serviram durante o período compreendido pelo estudo estavam relacionados a ex-chefes de estado.

No entanto, como na ótica dos autores do estudo o continente consiste em apenas dois países — os Estados Unidos e o Canadá —, a região foi posta de lado na análise, uma vez que distorcia os resultados finais.

CC-BY-ND The Conversation

Dinastias políticas pelo mundo.

Com a América do Norte fora das contas, a Europa lidera a lista de líderes de famílias com laços políticos. No Velho Continente, 13% dos presidentes e primeiros-ministros, entre 2000 e 2017, vieram de famílias com um historial na política. A América Latina apresenta também a mesma proporção.

Ao todo, 11 dos 88 líderes latino-americanos que ocuparam cargos entre 2000 a 2017 estavam relacionados a outros presidentes. Jorge Luís Batlle, do Uruguai, teve três parentes diferentes que ocupavam a presidência antes dele.

A África Subsariana registou o menor valor percentual de executivos com laços familiares, das regiões estudadas, com apenas 9%.

No entanto, quando um presidente ou primeiro-ministro da África Subsariana tem laços familiares com a política, estes tendem a ser fortes. Dos 29 executivos africanos nesta condição, 18 estavam relacionados a ex-presidentes ou primeiros-ministros.

Dos 204 líderes asiáticos, 23 deles tinham conexões familiares com a política. Mais de 75 por cento estavam em países não-democráticos como o Butão, o Cazaquistão e o Sri Lanka.

Mulheres nas dinastias políticas

O estudo também revela algumas curiosidades interessantes sobre como as mulheres, no mundo inteiro, integram o mundo da política, dominado maioritariamente pelos homens. São poucas as que conseguem, de acordo com o estudo.

Dos 1029 executivos políticos incluídos neste estudo, apenas 66 eram mulheres. Entre eles a chanceler alemã Angela Merkel, a ex-primeira-ministra paquistanesa Benazir Bhutto, a vencedora do Prémio Nobel da Paz, Ellen Johnson Sirleaf, e a presidente Dilma Rousseff, do Brasil.

As mulheres que atingem os cargos mais altos são muito mais propensas a pertencer a famílias com historial político do que seus colegas do sexo masculino. Dezanove das 66 mulheres da amostra do estudo tinham conexões familiares com a política, cerca de 29%. No caso dos homens, apenas 100 dos 963 estudados, pouco mais de 10%.

Na análise feita, o apoio de um poderoso parente do sexo masculino ajuda significativamente as mulheres a ganharem credibilidade junto dos eleitores e membros de política interna. Isto sugere que os laços familiares são particularmente importantes para as mulheres entrarem na política.

Laços familiares começam nos homens

As mulheres presidentes e primeiras-ministras que vieram de famílias políticas eram, sem exceção, a primeira mulher da família a ocupar o cargo. A sua ligação com o poder era invariavelmente um parente do sexo masculinogeralmente pai ou marido.

Bhutto, que foi assassinada em 2007, chegou ao poder 14 anos depois do seu pai, o ex-presidente Zulfikar Ali Bhutto, igualmente assassinado. A argentina Cristina Fernández sucedeu ao marido, Nestor Kirchner, como presidente da Argentina em 2007.

É de realçar que 71% de todas as líderes mundiais abordadas no estudo alcançaram o cargo sem nenhuma ligação familiar com a política. Isso inclui a atual presidente croata, Kolinda Grabar-Kitarovic, filha de talhantes.

E na história dos mais famosos líderes do planeta, um dos casos mais peculiares de sucessão dinástica ocorreu na Índia, país que foi governado durante 44 anos por um primeiro-ministro, pela sua filha e pelo seu neto: o primeiro primeiro-ministro do país, Jawaharial Nehru (1947-64), a mítica Indira Ghandi (1966-77 e 1974-84), e o último na “linha de sucessão”, Rajiv Ghandi (1984-89).

DC, ZAP // The Conversation

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