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Quando o novo coronavírus apareceu, em dezembro passado, a suspeita sobre a sua origem caiu sobre o mercado de Huanan, em Whuan, na província de Hubei. Mas o que é que as autoridades de saúde descobriram desde então?

Para entender o que aconteceu quando a covid-19 apareceu, o britânico The Guardian entrevistou Maria van Kerkhove, a virologista da Organização Mundial de Saúde (OMS), que se encontrava nos Estados Unidos quando tudo começou.

Apesar de estar de férias, Van Kerkhove continuava a verificar os e-mails, até porque todos os dias há sinais de potenciais problemas, revelou.

Há sempre alguma coisa que acontece na época do Natal. Há sempre algum alerta ou sinal de um caso suspeito. Nos últimos anos, tem sido o Mers [síndrome respiratória do Médio Oriente] – um caso suspeito que viajou para a Malásia ou Indonésia ou Coreia ou qualquer outro lugar na Ásia, vindo do Médio Oriente. Portanto, há sempre algum tipo de sinal. Há sempre alguma coisa que acontece”, disse.

Verificar esses relatos de suspeita de infeção, muitas vezes em partes remotas do planeta, é um estilo de vida para Van Kerkhove e para um grupo de especialistas, que inclui Christian Drosten da Alemanha, Marion Koopmans da Holanda e especialistas de Saúde Pública de Inglaterra e de Centros para Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA.

“Estou habituada a fazer isso durante as férias”, disse Maria van Kerkhove. “Normalmente não é nada de extraordinário. Mas desta vez foi diferente“, acrescentou.

O e-mail que Van Kerkhove recebeu no fim do ano passado tinha um comunicado da ProMed – Sociedade Internacional para Doenças Infeciosas -, que relatava um conjunto de casos de pneumonia na China, com origem desconhecida.

Na noite de 30 de dezembro, a comissão municipal de saúde de Wuhan emitiu um “aviso urgente” online, no qual alertou todas as instalações médicas para estarem atentas e colocarem em prática os seus planos de emergência.

“Soubemos de imediato que o assunto precisava de ser levado a sério. E ativamos os nossos sistemas imediatamente”, disse Van Kerkhove que, desde então, ainda não conseguiu parar.

Apenas alguns dias depois, já se sabia que não se tratava nem de Mers, nem de gripe nem Legionella, mas sim de Sars. E era algo novo.

“Pensei imediatamente que isto poderia ser um novo coronavírus, porque existem literalmente centenas ou milhares de coronavírus presentes em animais”, disse Van Kerkhove, que explica meticulosamente a evolução da pandemia duas vezes por semana nas reuniões da OMS.

E a verdade, relata a publicação britânica, é que os coronavírus já figuravam no plano da OMS para a necessária pesquisa e desenvolvimento de epidemias porque se sabia que o perigo existia desde a Sars, de 2003.

Quando a epidemiologista recebeu aquele e-mail, já pelo menos 124 pessoas tinham ficado doentes e algumas tinham morrido na província de Hubei, na China, depois de contraírem o vírus.

Em fevereiro, a Organização Mundial de Saúde começou a investigar a origem do surto, conversando com as primeiras pessoas diagnosticadas e com as suas famílias e colegas, disse Bruce Aylward, médico e epidemiologista nomeado para liderar a investigação.

Desde o momento em que desembarcou na China, Aylward sabia que estava a lidar com uma coisa muito séria, que o resto do mundo não estava a entender. Saiu do avião e viu-se no aeroporto de Pequim completamente vazio, contou.

O epidemiologista ficou, de imediato, impressionado com a seriedade com que o governo chinês estava a encarar o surto e com o custo que isso traria para o país.

Mas, nessa altura, a China estava a fazer o que precisava e que tantos outros países não fizeram – perceber de imediato a ameaça de saúde pública que o país enfrentava e procurar erradicar o vírus antes de descobrir a sua fonte.

Os principais suspeitos da origem do surto

De acordo com o The Guardian, o paciente zero não foi identificado, devido ao facto de a covid-19 se manifestar através de um quadro sintomático similar a uma pneumonia aguda, matando pessoas idosas e frágeis – o que terá atrasado a sua descoberta.

Algumas pessoas teriam sido infetadas já em meados de novembro e, das 124, quase todas (119) se encontravam na capital da província de Hubei, Wuhan. Os outros cinco infetados tinham estado naquela cidade antes de adoecerem.

Ainda antes de ser conhecida a sequência genética do vírus, e de acordo com o aviso emitido online, a primeira suspeita sobre a sua origem recaiu sobre o mercado de frutos do mar de Huanan.

Apesar de, aparentemente, o primeiro caso confirmado não ter qualquer conexão com esse local, numa amostra de 41 casos confirmados, 70% eram proprietários de bancas, funcionários ou clientes regulares.

O mercado – que não só vendia peixe, mas também animais exóticos vivos, muitas vezes capturados ilegalmente na natureza e abatidos na presença do cliente – foi fechado pelas autoridades chinesas no dia 1 de janeiro, para ser completamente limpo e desinfetado (o que poderá ter destruído pistas importantes).

Mas, mesmo assim, testes de zaragatoa mostraram vestígios do vírus em jaulas e, já no final de janeiro, foi revelada uma lista dos animais que incluía: crias de lobo, cigarras douradas, escorpiões, ratos de bambu, esquilos, raposas, civetas, salamandras, tartarugas e crocodilos.

No dia 11 de janeiro, dia em que foi relatada a primeira morte, cientistas chineses revelaram a sequência genética do novo vírus – que, juntamente com outras publicadas entretanto, mostrou que o SARS-CoV-2 poderia, afinal, ter origem em morcegos-ferradura.

As amostras colhidas após a síndrome respiratória aguda grave de 2002, SARS-CoV, mostraram que o vírus de morcego RaTG13 é 96% semelhante ao novo coronavírus.

E, tal como acontece com Sars e Mers, que são ambos coronavírus com origem em morcegos, é provável que tenha havido um hospedeiro intermediário.

Em março, os virologistas Eddie Holmes e Andrew Rambaut publicaram uma revisão, na revista Nature, sobre aquilo que pode ser deduzido acerca da origem do vírus através dos dados genéticos.

De acordo com os investigadores, a proteína spike do SARS-CoV-2 tem um “domínio de ligação” que se fixa a um determinado recetor – chamado ACE2 – de uma célula humana, mas os vírus provenientes de morcegos não a têm.

A OMS considera muito importante descobrir quais são as espécies que podem ser intermediárias e, principalmente, se poderá existir um reservatório do vírus e, até agora, estudos realizados em vários países mostraram que gatos domésticos, furões, hamsters e visons são particularmente suscetíveis à infeção.

Sem conclusões definitivas, também o laboratório de biossegurança do Instituto de Virologia de Wuhan se viria a tornar num dos suspeitos da origem do vírus. Mas essas ​​teorias de culpabilização da China foram recusadas ​​no artigo da Nature.

“As nossas análises mostram claramente que o Sars-CoV-2 não é uma construção de laboratório ou um vírus propositadamente manipulado”, disse Kristian Andersen, principal autor do estudo.

É importante que isso seja dito, afirmou Josie Golding, líder de epidemiologia da Wellcome: “Existem muitas ligações com outros vírus encontrados na natureza”.

Além disso, não é provável que tenha saído acidentalmente do laboratório de Wuhan, disse Golding, que costumava trabalhar num ‘estabelecimento de alta contenção’ em Surrey. A ideia de que uma pessoa foi infetada no laboratório e que espalhou o vírus pelo mundo inteiro é coisa de cinema, acrescentou.

A verdadeira origem do vírus continua, no entanto, por descobrir e a China alega que terá surgido noutro país, sendo posteriormente importado.

“Embora a China tenha sido a primeira a relatar casos, isso não significa necessariamente que o vírus tenha origem na China”, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Zhao Lijian, numa entrevista em novembro.

“O rastreio da origem é um processo contínuo que pode envolver vários países e regiões”, acrescentou.

Sofia Teixeira Santos, ZAP //

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