Nas páginas de economia dos jornais brasileiros não se fala dos perigos da dengue ou do zika, que assustam atletas e turistas em trânsito para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro do próximo mês, mas de outro tipo de vírus.

E, neste caso, contagioso: o vírus Oi. O pedido de recuperação judicial da empresa de telecomunicações, o maior da história do Brasil, pode repercutir noutras grandes empresas, na banca, nos mercados financeiros e no governo da principal economia da América Latina.

A empresa declarou-se insolvente, com caráter de urgência, na comarca da capital do estado do Rio de Janeiro na semana passada para fazer frente a dívidas de 66 mil milhões de reais, ou seja, perto de 17 mil milhões de euros.

“A administração das empresas Oi pretende tomar as providências e adotar os atos necessários à efetivação do pedido de recuperação em todas as jurisdições nas quais tais medidas sejam necessárias”, lia-se na nota que provocou agitação no mundo corporativo, nos credores, na Bolsa de Valores e no Palácio do Planalto.

O pedido desencadeou desde logo o pagamento de 14 mil milhões em swaps de créditos da Oi, segundo dados compilados pela Bloomberg, e fez os operadores da Ibovespa, Bolsa de Valores de São Paulo, capital financeira brasileira, engolir em seco durante os dias seguintes.

Em paralelo, terá impacto no balanço de bancos como o Bradesco, o Itaú Unibanco e o Banco do Brasil que, juntos, têm uma exposição próxima de 13,5 mil milhões de reais (perto de 3,5 mil milhões de euros), segundo estudo do Crédit Suisse.

Por outro lado, gigantes como as siderúrgicas CSN e Usiminas ou a transportadora aérea Gol estão entre as empresas que podem ser contagiadas pelo anúncio da Oi. Embora líder em número de passageiros, a Gol foi rebaixada pelas agências de rating Fitch e Moody’s para as classificações CCC e Caa1, respetivamente.

A crise financeira no país, que diminuiu a procura, e a subida do dólar, que retraiu viagens de brasileiros para o estrangeiro, levou a perdas do equivalente a quase mil milhões de euros em 2015 e de 1580 milhões de euros só no primeiro trimestre de 2016. A Golequaciona restringir o número de voos e de destinos, além de vender aeronaves da sua frota.

A Gol equaciona restringir o número de voos e de destinos, além de vender aeronaves da sua frota.

No caso da Usiminas, maior produtora de aço latino-americana, é a desvalorização do real a principal causa das dificuldades, uma vez que quase metade da sua dívida é em moeda estrangeira. Acrescem uma procura cada vez menor de aço no mercado interno, o excesso de oferta global e a desaceleração da economia chinesa.

A empresa está por isso em processo de renegociação de dívidas com o BNDES, banco de fomento estatal brasileiro. A CSN, a maior siderúrgica da América Latina e que é dona da portuguesa Lusosider, sofre dos mesmos problemas. Com isso, as duas siderúrgicas foram, tal como a Gol, classificadas pela Fitch como CCC e pela Moody’s como Caa1.

E são apenas exemplos: nos primeiros cinco meses de 2016 o número de empresas que pediu recuperação judicial quase dobrou – mais 95% – do que no período homólogo de 2015, segundo estudo da consultora financeira Serasa Experian, citado pelo diário espanhol El País.

Nos primeiros cinco meses de 2016 o número de empresas que pediu recuperação judicial quase dobrou – mais 95%

Gigantes, como a Oi, são a fatia menor do problema, com 124 dos pedidos; entre as médias empresas houve 198 solicitações; as micro e pequenas ficaram com a fatia de leão ao somarem 433 insolvências. Assinala a Fitch que o número de companhias em risco de não conseguir pagar aos seus credores é o maior dos últimos 10 anos.

As companhias sentem-se entre a espada e a parede. De um lado, a dificuldade de obtenção de crédito, a recessão e a queda do PIB. Do outro, a inflação alta e a necessidade do governo interino liderado por Michel Temer, do Partido do Movimento da Democracia Brasileira (PMDB), de promover um ajustamento orçamental feroz.

“Não está no nosso horizonte fazermos uma intervenção com recursos públicos na Oi”, disse quarta-feira Gilberto Kassab, ministro que tutela a área das telecomunicações após reunião com o ministro das Finanças Henrique Meirelles, ambos do Partido Social Democrático (PSD), da coligação governamental em torno de Temer.

A Oi é, segundo o especialista em telecomunicações Eduardo Tude, “ainda a principal concessionária brasileira, líder no Brasil na telefonia fixa e na banda larga mas apenas a quarta na rede móvel e com uma pequena presença na TV por assinatura”.

Assinala a Fitch que o número de companhias em risco de não conseguir pagar aos seus credores é o maior dos últimos 10 anos.

Braço da antiga estatal Telemar, foi um cavalo de batalha do governo de Lula da Silva que a queria como “superoperadora 100% nacional” para concorrer com a Vivo, a Claro e, mais tarde, a TIM.

O sonho de Lula tornou-se o sonho de José Sócrates, então primeiro-ministro português: ao adquirir a Brasil Telecom, a Oi ficou pesada demais e submersa em dívidas, tendo de recorrer ao investimento da Portugal Telecom, que entretanto vendera a sua participação na concorrente Vivo à Telefonica.

Mas os problemas não diminuíram, pelo contrário. Primeiro pelos prejuízos do investimento da Portugal Telecom na Rio Forte, holding do Grupo Espírito Santo, em 2014, depois pela detenção de Otávio de Azevedo, presidente da acionista Andrade Gutíerrez, na Operação Lava-Jato, no ano passado.

Hoje, por causa dos seus passado, presente e futuro, a Oi é um vírus no mercado de que toda a gente quer distância.

in Dinheiro Vivo, Por João Almeida Moreira
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