O representante da ONU na Guiné-Bissau, José Ramos-Horta, desvalorizou hoje a onda de rumores sobre instabilidade no país, que levaram a declarações das forças armadas e do governo, e defendeu mais comunicação entre autoridades e povo.

Rumores sobre instabilidade e sobre um golpe de Estado levaram na quinta-feira as chefias militares a convocar a imprensa para dizer que nada de anormal se passa na Guiné-Bissau, tendo o governo emitido um comunicado a pedir que a justiça encontre e leve a julgamento os responsáveis pela desinformação.

Hoje, o representante do secretário-geral das Nações Unidas, Ramos-Horta, disse que “boatos como os que ocorreram nos últimos três dias são normais” e que é preciso não dramatizar. “É preciso que os líderes, sobretudo os militares, mantenham a cabeça fria, a serenidade, e não que eles próprios reajam aos rumores com alguma virulência, o que só vai ainda apoquentar mais a população”, disse.

A Guiné-Bissau, como muitos países pequenos onde os meios de comunicação social não são muitos ou onde não há mito diálogo do governo com a imprensa, “dá espaço para boatos e rumores”, disse Ramos-Horta, acrescentando que já sugeriu ao governo para que comunique mais com a população. Exemplificou com o caso da doença do Presidente interino, que está fora do país desde março: “devia haver um boletim clínico de dois ou de três em três dias”.

Ramos-Horta reuniu-se na quinta-feira com o primeiro-ministro e outros membros do governo mas explicou hoje que a reunião foi de rotina e não relacionada com a onda de rumores.

O representante da ONU quer que haja, disse, “um clima de transparência e de diálogo”, tanto mais que por vezes há “um bocado de incompreensão em relação ao governo”.

“Quem está no governo é acusado de ser pró-golpe, quando na realidade, pelo menos a maior parte, é gente civil, ligada a todos os partidos, e que luta com enormes dificuldades para que o país não se afunde. E tem feito um esforço notável para pôr a máquina do Estado a funcionar. A ONU reconhece esse esforço do governo de transição”, disse Ramos-Horta.

O responsável acrescentou que tem tentado sensibilizar a comunidade internacional para que entenda as dificuldades que o governo enfrenta, para que este veja também nos parceiros amigos e não adversários que querem dificultar a sua “tarefa complexa”.

Ramos-Horta disse que continua a insistir para que as eleições se realizem ainda este ano e reafirmou que a comunidade internacional vai apoiar “com todos os meios” possíveis.

Na Guiné-Bissau há quase dois meses, Ramos-Horta disse sentir simpatia da parte do Presidente e do governo ainda que desconheça se o líder das Forças Armadas, António Indjai, tem a mesma opinião.

“Mas seja o que for que ele pensa eu sou amigo da Guiné-Bissau, compreendo as dificuldades que as Forças Armadas enfrentam, faz-me doer o coração ver como os soldados, sargentos e oficiais vivem, e fico muito feliz de saber que a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) já vai começar dentro de semanas a reabilitação física dos quartéis”, disse.

Mas depois, acrescentou, tem de se reorganizar as Forças Armadas, porque o país “não pode ter tantos generais, brigadeiros e coronéis, não pode ter tantos milhares de homens. Tem de adequar as suas forças à capacidade financeira e económica do país para custear essas forças”.

“A segunda fase terá de ser o repensar das Forças Armadas, o adequar as possibilidades da Guiné-Bissau e os desafios atuais. Acredito que o Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas e outros pensam o mesmo”, disse, lembrando que a CEDEAO vai liderar o processo e que a União Europeia, o Brasil e Portugal irão apoiar, esperando-se que também Angola retome a ajuda.

NOTICIA LUSA
ANTONIO AMARAL/LUSA
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