O canal da televisão pública marroquina exibiu uma rubrica com dicas de maquilhagem para as mulheres maltratadas esconderem as nódoas negras sofridas com as agressões – uma emissão polémica que gerou revolta e que já levou o canal a pedir desculpas.

As imagens televisivas foram divulgadas na 2M, a estação pública de Marrocos, durante uma rubrica de maquilhagem do programa matinal “Sabahiyates”, no Dia Internacional de eliminação da violência contra as mulheres.

“Hoje, vamos abordar uma triste realidade. Mas, por ocasião da jornada mundial de luta contra as violências contra as mulheres, vamos mostrar as técnicas de maquilhagem que devem usar para esconder os vestígios de violência no vosso rosto”, disse a maquilhadora Lilia Mouline, citada pela Nessma.tv.

Lilia Mouline explicou então que a mulher que ia maquilhar tinha o rosto falsamente maltratado, devido a “efeitos cinematográficos”, e não verdadeiros ferimentos, relatou a AFP.

“O verde é usado, com a ajuda de um pincel, para camuflar a parte avermelhada” e “um corrector cor de laranja, mais amarelado, e depois uma base” de forma a cobrir os olhos negros, foram alguns dos conselhos dados pela maquilhadora, que acrescentou esperar “ter fornecido soluções às mulheres que têm necessidade destes conselhos, para que possam continuar a sua vida e ir trabalhar”.

Difundida na quarta-feira de manhã, a sequência passou despercebida, mas a emissão, colocada online na quinta-feira na página do canal, foi notada pelos internautas e suscitou numerosos comentários indignados nas redes sociais, tendo depois sido retirada do site.

“A 2M decidiu celebrar o Dia Internacional de Eliminação da Violência contra as Mulheres com maquilhagem anti-golpes”, criticou um utilizador de uma rede social.

“O canal 2M propõe-vos, meninas e senhoras, a solução para esconder o azul da vossa cara se os vossos maridos, pais ou irmãos vos partirem a cara”, comentava outro.

A revolta levou até à criação de uma petição pública online, apelando à Alta Autoridade para Comunicação Social de Marrocos, a HACA na sigla original, para penalizar o canal, considerando que a emissão é uma forma de “normalização da violência contra as mulheres”.

Num comunicado divulgado nesta sexta-feira, a direcção do canal considerou a rubrica “completamente inapropriada” e apresentou “as suas desculpas mais sinceras pelo erro de julgamento”, “dada a sensibilidade e gravidade do tema”.

De acordo com a organização não-governamental (ONG) internacional Human Rights Watch, “a brutalidade cometida contra as mulheres é moeda corrente” em Marrocos.

Um estudo feito em 2009-2010 pelo Governo concluiu que quase dois terços das mulheres foram vítimas de violência física, psicológica, sexual ou económica em Marrocos. Entre essas, “cerca de 55% disseram ser vítimas de violência doméstica”, adiantou a ONG.

O Dia Internacional para a Eliminação da Violência Contra as Mulheres, que se assinala a 25 de Novembro, foi instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1999.

ZAP / Lusa

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