Os micróbios presentes no corpo de um astronauta, conservado a uma temperatura adequada, poderiam sobreviver a uma viagem curta no espaço. Assim, uma pobre alma à deriva poderia levar vida a um planeta próximo – por exemplo, Marte.

Mais cedo ou mais tarde, o inevitável irá acontecer: um astronauta em plena “actividade extra-veicular” terá um acidente, ou um ataque cardíaco fulminante, e morrerá no espaço.

Quando ocorrer um “falecimento cósmico”, diz à Astronomy Magazine o microbiologista Gary King, o melhor a fazer seria enviar o cadáver à deriva pelo espaço, para que o corpo possa um dia dar origem à vida em qualquer outro mundo.

“Sabemos que os organismos do nosso corpo conseguem sobreviver em condições extremas – mesmo a temperaturas extremamente baixas. Recentemente, até conseguimos extrair microorganismos sobreviventes no permafrost siberiano“, recorda King.

“Se me perguntarem se existe um conjunto de circunstâncias que permitiriam que um corpo sem vida levasse micróbios sobreviventes a outro planeta, a resposta é sim”, diz King, investigador da Universidade da Louisiana, que se dedica ao estudo da sobrevivência de organismos em ambientes externos.

Segundo o cientista, há dois factores críticos para que este cenário se possa concretizar: a temperatura do corpo e a distância de voo. É necessário que o corpo esteja preservado a uma temperatura superior à de congelação, mas não tão alta que os fluídos se evaporem.

No que diz respeito à distância da viagem, King aponta para um máximo de 4 anos-luz. E quanto mais tempo o corpo viajar até ao seu destino, menor será a probabilidade de que os seus micróbios sobrevivam.

Mas, imaginando que o corpo é apanhado pela gravidade de um mundo sedento de vida e nele se despenha, poderia ele realmente semear essa vida noutro planeta?

(dr) Jack Teagle

“Dead Astronaut Comics”. As aventuras de um astronauta morto no espaço, por Jack Teagle

Segundo Gary King, há duas formas de um corpo conseguir levar vida a outro planeta.

Uma das possibilidades é a de que o corpo tenha servido de transporte a organismos vivos durante a sua viagem pelo espaço, e os consiga entregar com vida ao seu novo mundo.

A outra possibilidade, no caso de todos os micróbios, vírus, bactérias e germes terem falecido na viagem, é a de que os componentes orgânicos do astronauta e seus bichinhos cheguem ao planeta e dêem origem a uma forma de vida completamente diferente.

“Sim, seria possível”. Tanto Jack Szostak, geneticista da Harvard Medical School e prémio Nobel da Medicina 2009, como Lee Cronin, químico da Universidade de Glasgow que estuda a génese da vida, concordam com a ideia de Gary King.

“Mas as condições teriam que ser ideais”, diz Szostak.

“As moléculas do astronauta, sozinhas, não conseguiriam recombinar-se para criar vida, mas poderiam ser um starter-pack para a formação da vida”, considera o cientista.

“Mas há algumas dificuldades a considerar”, diz Cronin. “Por exemplo, imaginemos que o corpo cai num oceano, e as suas moléculas se dissolvem e espalham na imensidão de água… dificilmente conseguiriam voltar a recombinar-se”.

“Seria diferente se por exemplo a tripulação inteira de uma malograda nave se despenhasse num pequeno lago…”,  acrescenta. “É possível”.

“E hipoteticamente, não é difícil imaginar que a vida na Terra poderia ter mesmo começado de forma semelhante”, diz Lee Cronin.

AJB, ZAP

COMPARTILHAR

DEIXE O SEU COMENTÁRIO

Por favor escreva o seu comentário!
Por favor introduza o seu nome aqui

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.